Para Professores de Inglês

O que é Colligation? A gramática secreta das palavras!

O que é colligation? Será que tem a ver com coligação política? Se sim, o que é que isso tem a ver com aprender ou ensinar inglês?

Calma! Colligation não tem nada a ver com política. Na verdade, o termos colligation está relacionada à gramática secreta das palavras ou frases.

Você vai entender que esse assunto é não apenas curioso, mas também abrirá sua mente para entender a gramática natural da língua inglesa.

Então, vamos começar por partes!

Collocations vs Colligation

Você certamente já ouviu falar muito sobre collocations, não é mesmo? Já escrevi vários artigos aqui sobre esse assunto. Portanto, para quem acompanha o Inglês na Ponta da Língua, collocations não é mais uma novidade.

Em resumo, collocations refere-se ao modo como as palavras se combinam naturalmente em uma língua. Por exemplo, nós dizemos “redondamente enganado“, mas não dizemos “redondamente linda” ou “redondamente difícil“. Também temos combinações como “tomar água“, “tomar vergonha“, “tomar uma atitude“, “tomar uma decisão“, etc. E ainda “dirigir um carro“, “comprar um carro“, “lavar o carro“, “alugar um carro“, mas não “beber um carro“, “digitar um carro“.

Collocations é o fenômeno que ocorre com as palavras (ou frases) ao nível de palavras (ou frases). Se combinarmos uma palavra com outra que não é nada natural, o resultado será de estranheza ou de risos.

Colligation, por sua vez, ocorre em um nível mais abaixo. Colligation ocorre no nível gramatical. Mas, não por meio de regras e explicações. Essa é, por assim dizer, a gramática natural (interna) do modo como uma palavra ou frase é usada.

O que é Colligation?

Como estou tentando deixar bem claro, a ideia de colligations no estudo (ensino) de inglês é algo relacionado à gramática de uso da língua. Ou seja, coisas que acontecem enquanto as pessoas usam a língua na prática.

O conceito colligations de forma bem básica pode ser definida como

as combinações gramaticais existentes entre uma palavra ou frase

Na prática isso significa que uma palavra ou frase (expressão) só é usada com determinada(s) estrutura(s) gramaticai(s). Assim, se collocations refere-se à combinação de palavras, colligation refere-se à combinação gramatical entre as palavras.

Um exemplo em português

Por exemplo, em português, nós temos a expressão dar branco. Uma rápida olhada em um dicionário, nós aprendemos que “dar branco” significa esquecer-se de algo. Geralmente, ao conversar com alguém e esquecer momentaneamente algo que estava prestes a dizer, a pessoa poderá dizer “ih, deu branco!”.    

Veja bem! Em português, nós costumamos dizer “deu branco”. Note que o verbo “dar” está no passado (pretérito perfeito): “deu”. Você já parou para perceber que o verbo “dar” na expressão “dar branco” será na maioria das vezes usado no passado?

Claro que podemos usá-lo também na forma “dar” (infinitivo) quando dizemos “acho bom você estudar mais um pouco, para não dar branco na hora da prova”. Assim, notamos que “dar” na expressão “dar branco” pode ser usado no passado ou no infinitivo.

Agora, pense um pouco mais. Será que podemos usar essa expressão no futuro (Futuro do Presente)? É normal alguém acordar e dizer “acho que hoje darei um branco no almoço”? Ou ainda, “se você não estudar, você dará um branco na hora da prova”? Eu não sei aí na sua cidade, mas em todas pelas quais eu já estive pelo Brasil, todos afirmam que “dar branco” no futuro não é possível. Da mesma, forma também não é possível no presente: “eu dou branco todos os dias”, “você dá branco sempre”.

Gramaticalmente falando, os linguistas percebem um padrão na expressão “dar branco”: ela é usada com muito mais frequência no passado (deu branco) e no infinitivo (dar branco). Essa combinação (relação) gramatical que a expressão possui é o que chamamos de “colligation”: o padrão gramatical que uma palavra ou expressão possui.

Passando para o inglês

Em inglês, a expressão “dar branco” é “go blank”. Mas, aprender apenas isso, não significa que você (ou seu aluno) já sabe a expressão.

Para que a expressão seja melhor ensinada (aprendida, adquirida), é preciso dizer que em inglês a expressão equivalente à nossa “deu branco” será sempre “my mind went blank” ou “my mind’s gone blank”:  

  • I was so nervous during the interview that when I was asked about my experience, my mind went blank. (Eu fiquei tão nervosa na hora da entrevista que quando me perguntaram sobre minha experiência, me deu um branco.)

Go blank” tem ainda outros usos e significados em inglês. Estes outros usos e significados podem pedir combinações gramaticais diferentes. Isso é normal! Mas, o fato é que na situação de esquecer algo no momento da fala e dizer “deu branco” em inglês será sempre “my mind went blank” ou “my mind’s gone blank”.

Portanto, você deve aprender esse uso já com a gramática que ela pede naturalmente. Evitando assim, decorar a apenas o “go blank” e achar que vale para tudo quanto é tempo verbal.

Mas, em que isso ajuda no seu aprendizado de inglês? Por que esse negócio de “colligation” é importante?

Por que entender esse conceito é importante?

Entender a ideia de colligation ajuda você a perceber a diferença entre a gramática natural da sua primeira língua (português) e da língua que está aprendendo (inglês).

Por exemplo, você aprende que want significa querer e acha que já sabe usar a palavra. Assim, você resolve dizer o seguinte em inglês: “Ele quer que eu fale com a chefe” e para isso traduzirá assim:

  • He wants that I talk with the boss.

Aparentemente está tudo certo nessa tradução. O tempo verbal está correto (he wants). As palavras estão em ordem. Enfim, tudo parece perfeito. Seu professor te corrige dizendo que o certo é:

  • He wants me to talk with the boss.

Você não sabe por que errou. Começa a achar que inglês é complicado. Cria um bloqueio ou se frustra achando que nunca vai aprender.

A resposta para isso é que a gramática por baixo do uso da palavra want nesse caso não é a mesma como em português. A micro-gramática da palavra want não está explícita nos livros de gramática. Logo, você precisa perceber e dissociar que o padrão em português é diferente do padrão em inglês:

  • querer que alguém faça algo
  • want someone to do something

Não adianta querer encontrar regras gramaticais estabelecidas para o uso de want. Isso é algo implícito e que devemos associar ao uso das palavras naturalmente. Os linguistas chamam isso de lexical priming.

O que é lexical priming?

De modo bem simples, o conceito de lexical priming diz ao aprendermos nossa primeira língua as palavras e frases são imprimidas em nossa memória de modo natural.

Assim, sabemos o significado de uma palavra (meaning), seu uso com outras palavras (collocations) e sua gramática natural (colligation). No entanto, sabemos disso tudo de modo automático; sem a necessidade de explicação.

Quando aprendemos português, o verbo querer é primed em nossa memória com as formas mais comumente usadas. Por isso, sabemos naturalmente dizer “Ele quer que eu fale com a chefe“.

Já ao aprendermos inglês, nós observamos a sequência (chunk of language) “want someone to do something” e a praticamos por meio de exemplos e a reencontramos sendo usada em textos falados ou escrito. Isso ajuda o aluno a aos poucos ter essa sequência primed em sua memória.

Em resumo, o lexical priming envolve saber:

  • o significado (meaning) de uma palavra e suas associações semânticas (semantic associations)
  • as palavras que combinam com outras palavras (collocations)
  • a gramática natural (ou micro-gramática) que está por trás de uma palavra ou frase (colligation)

Vendo isso na prática!

Caso você ainda esteja se perguntando como isso tudo deve ser aplicado no ensino/aprendizado de inglês, darei mais um exemplo.

Você está lendo um texto e…

Digamos que ao ler um texto você encontra a palavra aback. Você recorre a um dicionário e lê que aback é um advérbio (ou preposição) geralmente usado com o verbo take. Portanto, take aback. Se o seu dicionário for bom, ele ainda vai dizer que geralmente usa-se a expressão be taken aback.

Ou seja, aback nunca aparecerá combinada com outras palavras que não seja take. Logo, não existe, portanto, give aback, set aback, look aback, read aback, run aback, etc. O único verbo usado com aback é sempre take: take aback.

Além disso, take aback estará sempre no modo passivo; então, be taken aback. Nada de dizer will take aback, took aback, can take aback. Pois, será sempre be taken aback.

Procurando por exemplos…

Com isso você lê mais exemplos para entender o uso da expressão como um todo e não apenas da palavra aback:

  • I was taken aback by the girl’s directness. (Eu fiquei sem reação com a honestidade da garota.)
  • When I told my parents I was married, they were completely taken aback. (Quando eu contei aos meus pais que estava casada, else ficaram totalmente atônitos.)
  • I was taken aback by his harsh criticism. (Eu fiquei de boca aberta com as críticas severas dele.)
  • She was completely taken aback by his anger. (Ela ficou muito assustada com a raiva dele.)
Indo além do simples…

Se você desenvolver sua habilidade de noticing, vai ainda notar – mesmo que os dicionários não digam – que os exemplos estão geralmente no passado: was taken aback, were taken aback. Assim, cria a hipótese de que essa expressão – be taken aback – é usada geralmente no passado. Temos aí a ideia de gramática natural da expressão na prática: colligation.

Não só isso, mas observa também que podemos usar as palavra completely e by junto a was/were taken aback: was/were completely taken aback by something/someone. Logo, estamos dantes de collocations, palavras que combinam naturalmente com outras.

Veja como você foi do simples aback encontrado em um texto e chegou a algo muito mais interessante e significativo. Você observou, criou hipóteses, confirmou com exemplos e agora pode experimentar isso tudo criando seus próprios exemplos.

Ou, a professora em sala de aula pode fazer esses caminhos com seus learners e ajudá-los a imprimir (registrar) no cérebro o uso natural de be taken aback. Ela mostra meaning, colligation e collocations de modo integrado.

Conclusão

Todos os conceitos que você viu acima fazem parte do núcleo da Lexical Approach (abordagem lexical).

É bem provável que você como professor de inglês vá dizer que já faz isso em sala de aula. Mas, será que faz mesmo?

Afinal, todos esses conceitos procuram evitar algumas coisas que todos os professores SEMPRE fazem em sala de aula:

  • ensinar teoria gramatical (metalinguagem): regras e termos técnicos
  • palavras e expressões de modo aleatório apenas com uma única representação simbólica ou definição simplória

Temos ainda o conceito de lexical priming que muda o modo como podemos ajudar os aprendizes a registrar algo em suas memórias de longo prazo.

Ao invés de registrarmos palavras, expressões e gramática de cima para baixo (top-down approach), estaremos fazendo o oposto do que a maioria das teorias de ensino sempre pedem para que seja feito. Ou seja, a abordagem será de baixo para cima (bottom-up approach).

Essa abordagem, ajuda os aprendizes a aprender a língua como ela é realmente usada no dia a dia e também colabora no desenvolvimento das habilidades de auto-aprendizagem (self-learning) dos mesmos.

That’s it! Espero que tenha ficado clara a idea de colligation e como isso contribui para o desenvolvimento do ensino e aprendizado de inglês de modo mais natural e centrado nos alunos.

Take care and keep learning!

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