Regras Gramaticais do Inglês: Ajudam ou Atrapalham?

Após o texto Aprender Inglês Sem Gramática, recebi emails indicando vários sites que discordam dessa ideia. Os autores dos sites indicados afirmam que aprender as regras da gramática é essencial para ajudar na criação de novas sentenças em inglês. Saber as regras da gramática ajuda você a extrapolar o uso da língua.

Visto que muita gente questionou a ideia, resolvi escrever uma série de textos falando mais sobre o aprender inglês sem gramática. Este é apenas o primeiro. Os textos poderão parecer chatos, mas procurarei ser o mais simples e didático possível para que todos os leitores (estudantes, professores, pesquisadores, autores, etc.) entendam os pontos sem problemas. Portanto, vamos lá!

Como dito no início, o pessoal que defende o ensino da gramática do modo tradicional argumenta que aprender as regras gramaticais do inglês ajuda o estudante a usar as regras para criar novas sentenças. De acordo com eles, o simples fato do estudante aprender as regras  aumenta a possibilidade de se dizer inúmeras coisas novas. Esse argumento pode ser assim resumido:

As regras da gramática se fazem necessárias para que você – estudante de inglês – seja capaz de criar inúmeras novas sentenças em inglês e, assim, aumentar o seu poder de uso da língua. Sabendo as regras, você poderá aplicá-las em outros contextos, momentos, palavras, sentenças, etc., e assim se comunicar mais facilmente na língua alvo.

Um exemplo bem simples desse argumento na prática é o seguinte: em inglês o Present Continuous é formado com o verbo to be no presente seguido pelo verbo principal com –ing [Leia: Tempos Verbais: Present Continuous]. Assim, você poderá dizer:

  • I am studying.
  • He is reading.
  • She is singing.
  • They are running.

Seguindo a mesma regra acima você teoricamente poderá ainda dizer:

  • I am prefering
  • We are understanding
  • I am wanting
  • She is needing

No entanto, os verbos prefer, understand,  want e need não são usados no Present Continuous. Isso significa que as sentenças do último grupo estão erradas no que diz respeito ao uso real da língua. Já do ponto de vista das regras para a formação do Present Continuous, elas estão corretas.

Outro exemplo está na sentença abaixo:

  • Why did you delay much?

Regras Gramaticais do Inglês: Ajudam ou Atrapalham?

Por um lado, a sentença está gramaticalmente correta. O uso do pronome interrogativo, do verbo auxiliar do na forma interrogativa do Past Simple e a ordem das palavras na sentença foram feitos de modo impecável. Logo, do ponto de vista das regras gramaticais do inglês, trata-se de uma sentença correta.

Por outro lado, porém, a sentença não significa nada para um falante nativo de inglês. Por quê?

Quando queremos perguntar “por que você demorou tanto?” em inglês a pergunta mais natural e comum é “what took you so long?”. Note que a gramática usada nessa nova sentença não segue os padrões gramaticais exigidos pelas regras. Isso não quer dizer que se trata de uma sentença errada; pois, ela está correta e é usada por qualquer pessoa que fala inglês naturalmente.

Logo, vemos aí que as regras gramaticais do inglês podem simplesmente deixar os estudantes na mão quando o assunto é o uso da língua em contexto real e natural. Seguindo as regras fielmente o estudante poderá não se comunicar tão bem assim. Uma prova de que as regras gramaticais não são 100% seguras.

Você deve estar achando que eu – Denilso – inventei uma nova teoria, não é mesmo? Se você pensa assim, continue lendo, por favor.

Em 1981, o linguista Florian Coulmas, em Conversational Routine: Explorations in Standardized Communication Situations and Prepatterned Speech, ao falar sobre o fato de criar novas sentenças seguindo as regras gramaticais do inglês, escreveu o seguinte:

almost every sentence has an occurrence probability of close to zero

Ele está dizendo aí que quase todas as sentenças criadas levando em conta apenas as regras da gramática têm uma probalidade quase zero de acontecer em contextos de uso real da língua inglesa. Veja que Coulmas publicou seu livro em 1981 – 32 anos atrás (eu tinha apenas 5 anos de idade).

Outro linguista, Michael Lewis, em Implementing the Lexical Approach: putting theory into practice (1997), escreveu:

A glance at many ELT materials, particularly grammar books, shows that there is a tendency to treat all possible sentences as of equal status.

O linguista critica aí o fato do livros de ensino de inglês – principalmente as gramáticas – tratarem todas as sentenças criadas conforme as regras da gramática como se fossem iguais. Para ele isso é perigoso; pois, seguir as regras à risca para criar inúmeras sentenças não significa que o estudante será capaz de se comunicar naturalmente em inglês. Criar sentenças se baseando apenas nas regras gramaticais do inglês nem sempre surtirá o efeito comunicativo desejado.

Veja que o embrião da ideia de aprender inglês sem gramática não é tão novo assim. Inúmeros outros estudos foram, estão sendo e continuarão a ser feitos nessa área. Em algum momento, a ficha cairá para muitos e a ideia não soará mais tão absurda, ridícula e fantasiosa assim. Até lá, nós vamos tentando mostrar isso às pessoas. Aliás, quem participa do curso Aprender Inglês Lexicalmente aprende justamente isso [Inscreva-se clicando aqui!].

Neste artigo, procurei mostrar a você que aprender as regras gramaticais do inglês na esperança de extrapolar o uso da língua por meio da criação de novas sentenças pode não ser algo tão seguro assim. Um estudante de inglês que se apega às regras e procura aprender a língua de modo mecânico poderá produzir sentenças que em inglês não farão o menor sentido: sentenças gramaticalmente possíveis, mas usualmente improváveis.

No próximo artigo, responderei às seguintes perguntas: Será que aprender inglês sem gramática significa deixar de fora um dos quatro estágios do aprendizado? Será que ao aprender inglês sem gramática seu aprendizado será deficiente? Aguarde as cenas do próximo capítulo.

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