O que é o International English?

Após escrever o post sobre diferenças e curiosidades entre o inglês britânico e o inglês americano, me senti na obrigação de escrever outro post abordando o que hoje os especialistas chamam de International English. Assim, não corro o risco de alguém achar que eu privilegio um inglês em detrimento do outro. Na verdade, eu defendo a ideia do International English. Portanto, devo falar a respeito dele.

O International English é também conhecido como Global English, World English, Common English ou General English. Na literatura acadêmica, utilizamos com muito mais frequência os termos destacados em negrito.De forma resumida, o International English “pertence a todas as pessoas (do mundo) que falam inglês, mas ele não é a língua nativa de ninguém” (Rajagopalan, 2004:11). Ou seja, o International English não é uma língua própria de um país ou outro, mas sim uma língua internacional de conhecimento de todos as pessoas do mundo que a falam.

Em 1985, o linguista Braj Kachru sugeriu o que ficou conhecido como “os círculos do inglês”. Em um artigo, ele demonstrou que a língua inglesa era uma língua com três círculos de influência (veja figura ao lado). No círculo interior (inner circle) encontram-se os países nos quais o inglês é a língua mãe (EUA, Reino Unido, Austrália, Irlanda, etc.). No círculo externo (outer circle) estão países que tem a língua inglesa como segunda língua por alguma razão histórica ou cultural (Índia, Singapura, Nigeria, etc.). No último círculo, o círculo crescente (expanding circle) estão os demais países do mundo que aprendem o inglês como língua estrangeira (Brasil, Alemanha, México, Japão, China, etc.).

Durante muito tempo os autores de materiais didáticos, donos de escolas, professores e demais profissionais da área de ensino de inglês no munto todo privilegiaram o inglês que estava apenas dentro do “inner circle”. Ou seja, ensinavam apenas o inglês britânico ou o americano. Pois, tratava-se do tipo de inglês puro, correto, superior, melhor, perfeito, etc. Logo, esse era o inglês que deveria ser ensinado ou aprendido. Infelizmente, essa mentalidade continua impregnada na cultura brasileira.

Rajagopalan (2004:111) escreve que esse pensamento de que o “inner circle” é superior aos demais “fez (e ainda faz) nascer um complexo de inferioridade extremamente irritante entre muitos professores e estudantes de inglês” ao redor do mundo. Isso porque para essas pessoas o padrão de perfeição a ser alcançado é o inglês britânico ou americano. Esse comportamento faz com que as pessoas considerem o inglês uma língua difícil e impossível de ser dominada. Resultando em um complexo de inferioridade e incapacidade no aprendizado.

Para evitar esse pensamento, começou então a ser dicutida a ideia de que a língua inglesa é de uso internacional (língua franca). Logo, sotaques, palavras, expressões, pronúncias, gramáticas (diferentes do padrão), etc., se misturam e se espalham de uma forma impressionante. “O ‘inner circle’ perdeu muito de seu poder linguístico, real ou imaginado”, escreve Jeremy Harmer (2007:18). Por conta do crescimento do inglês como língua franca entra em cena o chamado International English.

Harmer acrescenta ainda que “a pessoa que fala o World English é, talvez, capaz de lidar com uma ampla gama maior de variedades da língua inglesa do que uma pessoa que fica presa às atitudes e competências do falante nativo”(do inglês americano ou britânico, por exemplo). Isso significa que quem se preocupa demais em aprender a falar inglês como um britânico ou americano pode não ser capaz de se comunicar efetivamente com o resto do mundo. Nas palavras de Rajagopalan (2004:115), “quem não consegue se comunicar em inglês com uma pessoa com sotaque grego ou punjabi é comunicativamente deficiente”.

Toda essa discussão fez com que Kachru (2004) propusesse um novo círculo. Ele mantém o “inner circle” (falantes nativos da língua inglesa). No lugar do “outer circle”, ele coloca os falantes proficientes da língua inglesa (high proficiency non-native speakers). E no lugar do “expanding circle”, ele põe as pessoas cujas habilidades linguísticas em inglês não são muito altas (low proficiency non-native speakers).

Atualmente, editoras, escolas internacionais, faculdades, empresas, etc., preocupam-se muito mais com o inglês internacional doque uma variantes específica ou outra. Claro que ainda há materiais desenvolvidos para uma variante específica do inglês ou outra (americano ou britânico, por exemplo). No entanto, a ideia do International English tem sido divulgada, discutida e ensinada com muito mais frequência.

Portanto, saiba que você, estudante de inglês, deve estar preparado para falar inglês com qualquer pessoa no mundo. Por mais complicado que isso possa ser. A ideia hoje no ensino de língua inglesa é a de formar pessoas proficientes capazes de se comunicar com qualquer outra pessoa que fala inglês, seja um nativo ou não. Formar pessoas com capacidade de compreender alemães, chineses, italianos, franceses, coreanos, americanos, irlandeses, canadenses, etc., falando inglês.

Não há mais a superioridade linguística de uma forma ou outra. Todas as formas devem ser reconhecidas, aceitas e compreendidas. Para alcançar esse nível é necessário dedicação, envolvimento com a língua e motivação para continuar aprendendo sempre. Em resumo, não se dedique apenas a um tipo de inglês; dedique-se ao inglês falado no mundo. Caso necessário seja, aprefeiçoe-se em uma variantes ou outra; mas apenas se for realmente preciso.

Referências

  • Harmer, J. (2007). The Practice of English Language Teaching. Pearson Longman, Essex.
  • Kachru, B. (1985). Standards, Codification, and Sociolinguistics realism: the English language in the outer circle. CUP/British Council.
  • Kachru, B. (2004). Asian English: beyond the canon. Hong Kong University Press.
  • Rajagopalan, K. (2004). The Concept of ‘World English’ and its Implications for ELT. ELT Journal 58/2.

Para os professores interessados em ler mais sobre esse assunto e seus desdobramentos recomendo “English as a Global Language”, de David Crystal, editora Cambridge University Press.

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