Por que brasileiro não aprende inglês?

Dias atrás, ao ser entrevistado por um programa de TV, o repórter perguntou: “Denilso, por que brasileiro não aprende inglês?“. Dei lá minha resposta, mas isso ficou martelando na minha cabeça! Curiosamente, dias depois, estava conversando com o amigo Miguel Neneve e entramos no mesmo assunto. Assim, depois de pensar bastante e analisar alguns fatos, percebi algo interessante e compartilho neste texto.

Muitos devem estar pensando que o problema maior está no governo brasileiro. Afinal, o sistema educacional do país é defasado. E, relacionado ao ensino de inglês, a defasagem é muito maior. Aqui, ainda se ensina inglês do mesmo modo como era ensinado nos tempos da vovó. Outros culpam as escolas de idiomas. Pois, como dizem por aí, essas escolas estão mais interessadas em ganhar dinheiro do que ensinar inglês de verdade. No entanto, não podemos generalizar. Há escolas de idiomas que possuem um plano pedagógico excelente. Qualificam seus professores de modo exemplar. Possuem materiais atualizados.

A verdade é que falar do governo e das escolas de idiomas virou rotina. Já estamos cansados de ouvir isso. Logo, será que não há outra resposta para a pergunta “por que brasileiro não aprende inglês?“?

Por que brasileiro não aprende inglês?Após pensar um pouco e analisar um pouco mais, notei que o brasileiro não aprende inglês fluente por causa dele mesmo. O brasileiro é o seu próprio inimigo no aprendizado de inglês. Como assim?
Não estou me referindo ao fato do brasileiro deixar para aprender inglês em cima da hora. Também não se trata do fato de que grande parte das pessoas que estuda inglês no Brasil estão à espera de um milagre: dormir hoje e acordar falando inglês amanhã. Falar da preguiça de estudar é algo que não entra aqui também. Enfim, o problema não está nessas atitudes apenas. Há ainda dois outros pontos que considero piores.

Como profissional na área de ensino de inglês e pesquisador, garanto a você que estes dois pontos são responsáveis também pela demora para se aprender inglês no Brasil. Estes dois pontos são

  • Desejo incontrolável (quase doentio) de falar inglês como um falante nativo (americano ou britânico)
  • Busca da perfeição na gramática e, principalmente, na pronúncia

A grande maioria dos brasileiros acha que aprender inglês significa aprender a falar igualzinho a um nativo. Esse comportamento gera comentários assim: “eu quero falar inglês como americano/britânico“, “o inglês aqui é americano ou britânico? Eu só quero se for britânico” e outros do tipo. Essa coisa de falar inglês como um americano não deve ser o objetivo principal de ninguém que estuda inglês. Perder tempo com coisas do tipo “inglês britânico é melhor que inglês americano” só ajuda a atrapalhar e criar mais dificuldades. [Leia: O que é International English?]

O outro ponto é aquele de querer ser perfeito na gramática e na pronúncia. O desejo da perfeição gramatical é notada em comentários do tipo “não sabe nem português direito e quer aprender inglês“.

Como não sabemos português direito!? O fato de não sabermos todo o código gramatical estabelecido pela Academia Brasileira de Letras não nos torna burros em português. Não somos incapazes de bater um papo em português pelo simples fato de não sabermos todas as regras dos livros de gramática. “Nóis erra; mais nóis se comunica!” (Nós erramos; mas, nós nos comunicamos). Claro que não é bonito falar errado! Mas, é errando que se aprende. E aprender é algo que acontece ao longo da vida!

Há ainda pessoas que dizem o seguinte: “só vou falar inglês quando aprender mais e estiver no nível avançado“. Eu acho isso um absurdo! Se essa lógica valesse para o português, essas pessoas só começariam a falar português quando chegassem ao Ensino Médio. E olhe lá!

Para encerrar, pergunto: Você já viu um italiano falando inglês? Um coreano falando inglês? Que tal um chinês? Um grego? Um boliviano? Um venezuelano? Um francês? Um alemão? Um argentino?

As pessoas de outros países que falam (aprendem) inglês estão pouco se lixando com o fato de falarem igualzinho a um britânico ou a um americano. Os falantes de outros países podem falar errado, mas se comunicam. A pronúncia deles não é perfeita, mas ainda assim dizem o que querem.

O TH deles sai esquisito e nem por isso se acham incapazes de falar inglês. Com o passar do tempo, eles vão aprendendo e melhorando. Já no Brasil, a maioria só se sente à vontade se a pronúncia for perfeita (som do th, por exemplo), a gramática for impecável e o jeito de falar for como o de um nativo.

O resto do mundo aprende a falar inglês porque não é tão exigente consigo mesmo. A cobrança pela perfeição lá fora não é doentia e exagerada como é aqui. O resto do mundo sabe que fala inglês “errado“, mas fala assim mesmo. Se a mensagem não é entendida, o resto do mundo tenta de novo. Já o brasileiro espera aprender tudo de modo perfeito para só então se soltar. E acaba desistindo no meio do caminho por achar inglês uma língua difícil.

Essa exigência exagerada causa frustração, tristeza, angústia, estresse, senso de incapacidade e outros sentimentos que atrapalham a capacidade de aprender inglês. Se você é muito exigente, cuidado! Os erros sempre acontecerão e falar como um nativo é extremamente difícil e até mesmo impossível. Lembre-se: saber inglês não significa ser perfeito e falar tudo certinho; saber inglês significa diminuir a quantidade de erros conforme vamos aprendendo.

Por fim, meu objetivo neste texto é mostrar um comportamento comum entre a maioria dos estudantes de inglês no Brasil: a exigência da perfeição. Esse comportamento acaba com os sonhos de muitos. Não pegue pesado com você mesmo e nem permita que os comentários dos outros frustrem seus planos de aprender inglês. Não seja exigente demais na gramática e pronúncia e nem queira falar inglês como um nativo fala. Vá com calma! That’s it!

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