A Banalização da Fluência no Ensino de Inglês

Antes de você continuar lendo todo este texto, quero ressaltar aqui que eu – Denilso – não estou me referindo nem a um Curso A ou a um Curso B. Acredito que muitas pessoas trabalham de modo sério e responsável. Investem em sua formação profissional e em seus parceiros. Desenvolvem materiais bons. Esforçam-se para ter e oferecer qualidade. Fazem parcerias que visam o desenvolvimento de seus alunos. Enfim, trabalham de modo sério.

O texto abaixo tem o objetivo de chamar a atenção para algo que tem se tornado extremamente comum no Brasil ultimamente. Algo que simplesmente acaba com a credibilidade de quem trabalha sério, de quem estuda (pesquisa) os tópicos de ensino e aprendizado de inglês como segunda língua, de quem é realmente profissional. Portanto, leia com atenção e sem preconceitos! Vamos lá!

Antes, um pouco de história

Nas décadas de 1990 e 2000, os cursos de idiomas costumavam ter como base em suas campanhas de marketing a palavra qualidade. O slogan que mais ouvíamos naquela época pode ser resumido na frase “ensino de inglês com qualidade”.

Foi nesse mesmo período que vimos o surgimento de inúmeras franquias de ensino de idiomas no Brasil. Em várias partes do país pipocaram inúmeras redes competindo ferrenhamente. Algumas dessas marcas conquistaram seu espaço dentro e fora do Brasil. Outras fracassaram ao longo do caminho e nem se tornaram tão conhecidas assim.

qualidade em curso de inglêsEsse crescimento no surgimento de escolas foi responsável por aquilo que  chamo de banalização da qualidade do ensino de idiomas. Nas campanhas de marketing praticamente todas as escolas diziam oferecer qualidade.

O curioso é que no geral ninguém sabia como era realmente essa qualidade. Quem dizia saber não contava a ninguém pois tinha medo da concorrência roubar os segredos e assim competir de igual para igual.

Na maioria das vezes, a qualidade oferecida era mensurada por meios físicos: material didático, salas de aulas confortáveis, local para estacionamento, ambiente climatizado, tecnologia de ponta sendo usada para fins educativos, salas com cadeiras confortáveis, etc.

Já no lado pedagógico, a qualidade do serviço de ensino de inglês oferecido era mensurada por meio de provas e, consequentemente, o modo como cada aluno era nivelado. Para isso cada instituição desenvolveu seu sistema de nivelamento. Claro que os níveis de uma rede não condiziam com os da outra. Enfim, quem aí já saiu de uma escola como Intermediário 1 e entrou em outra como Básico 3?

A falta de padronização na classificação dos níveis mostrou que a qualidade oferecida não era um padrão real e único. Tratava-se de algo feito de acordo com a cabeça de cada um. Ou seja, o corpo pedagógico de uma rede – quase sempre formada por um profissionais saídos de uma rede concorrente – criava de acordo com seu entendimento o modo como nivelariam seus estudantes e como ofereciam a tal qualidade.

Qualidade = Redução de Tempo

Com isso, a qualidade acabou virando uma espécie de sinônimo de redução de tempo nos estudos. Conforme novas redes foram surgindo a qualidade era vendida como algo superior e inovador e que, portanto, reduzia-se o tempo de aprendizado da língua. Esse tempo de aprendizado chegava a cair de 8 anos para 1,5 ano (e até mesmo menos) de uma instituição para outra.

Para fugir disso, algumas redes esforçavam-se para mostrar os resultados de seus alunos em exames de certificação internacional. Era assim que eles acreditavam estar comprovando a qualidade do ensino de inglês. Foi então que tivemos a propagação de siglas como TOEFL, TOEIC, FCE, CAE, CPE, IELTS e outras tantas referentes aos exames de proficiência em inglês.

De qualquer forma, a palavra qualidade acabou se perdendo e hoje ela quase não aparece na campanhas de marketing. Raramente se houve dizer “oferecemos um ensino de qualidade”, “nossa qualidade de ensino é comprovada por…” e coisas assim.

O termo qualidade ficou tão sem sentido que hoje em dia quase não faz mais sentido usá-lo.

Nova década, nova vítima!

Chegamos então à década de 2010. Diante da banalização da qualidade, o termo “fluência” virou a bola da vez. Na internet proliferam os “profissionais” que oferecem a fluência em inglês como se fosse algo mágico. É justamente essa mágica que tornou a fluência em algo tão fantasioso e milagroso.

É comum vermos cursos de inglês dizendo o seguinte:

  • somos especialistas em aquisição de fluência em inglês em tempo recorde
  • garantimos a sua fluência em inglês em até quatro meses
  • descobrimos uma fórmula mágica que ajudará você a ser fluente em pouco tempo
  • faça nosso curso e atinja a tão sonhada fluente em um ano
  • adquira nosso pacote de cursos e seja fluente de verdade

Confesso que é tanta coisa medonha que já estou vendo a hora de encontrar xaropes, pós mágicos, passes, feitiços, ervas e até viagens santas que prometem a fluência em inglês.

Estão fazendo com a fluência o mesmo que fizeram com a qualidade nas décadas anteriores. Estamos na era da banalização da fluência no ensino de inglês. O termo fluência virou algo tão banal, sem sentido, sem significado, sem graça que é até difícil usar esse termo de modo sério no Brasil.

A cada ciclo de 3 a 6 meses, somos pegos por enxurradas de e-mails e mensagens de um novo curso oferecendo uma nova grande descoberta milagrosa. Em comum, todos fazem uso  de palavras doces para provar ao possível cliente que aquele novo método funciona e é comprovado (sabe-se lá por quem!). De tão doces que são, essas palavras soam como um alento aos milhares e milhares de desesperados que acham que aprender inglês é algo simples e que exige pouco esforço. Pessoas que acham que ser fluente em inglês é mesmo algo alcançado por milagre.

Basta alguém dizer que descobriu uma fórmula mágica para ser fluente em inglês, que vários ingênuos – em efeito manada – correm para comprar. Muitas vezes o marketing é feito com a promessa de que se você assistir a um vídeo descobrirá os simples segredos da fluência em inglês que ninguém nunca contou a você ou que as escolas não querem que você saiba. A vítima assiste ao vídeo durante 30 minutos e no final a única coisa que descobre é que deve pagar uma determinada quantia para ter acesso a tais segredos.

Fico me perguntando quem é mais cara de pau: as escolas que não contam o segredo pois querem que você fique lá um tempão dando dinheiro a elas ou aquele marqueteiro online que em um vídeo diz ter um segredo para contar, mas que só contará se você pagar?

Falando sério, o que é fluência?

Pergunte a qualquer verdadeiro especialista da área de ensino de inglês o que é fluência e veja como ele fica desconcertado. Isso mesmo! Nós temos algumas ideias sobre o que é ser fluente, mas cada especialista, pesquisador, autor, profissional de verdade tem uma resposta diferente. Alguns nem resposta têm!

O que sabemos é que a fluência linguística (comunicativa) envolve alguns aspectos que ajudam o aprendiz a percebê-la em desenvolvimento. Alguns desses aspectos são:

  • fazer uso correto de pausas ao falar
  • uso dos chunks of language de modo apropriado
  • uso das smallwords que fazem parte da fala de qualquer nativo
  • uso de fillers e outros recursos linguísticos que mantêm a naturalidade na fala
  • fluidez na comunicação
  • comunicar ideias com naturalidade
  • clareza nas ideias comunicadas
  • uso de estratégias comunicativas para se virar quando quiser dizer algo ou mesmo entender algo
  • etc.

fluência em inglês livrosAutores como Ellis, Shepherd, Skeham, Crystal, Segalowitz, Schmitt, Nattinger, DeCarrico, Thornbury, Lewis e tantos outros sugerem aspectos e mais aspectos sobre o que significa ser fluente, mas não chegam a definir exatamente e nem de modo consensual o que é a fluência em si.

Muitas vezes preferimos falar apenas de desenvolvimento comunicativo do aluno. Ou seja, o profissional de ensino deve conduzir os alunos e alunas pelo caminho do aprendizado de vocabulário (chunks of language), gramática (a de uso e a normativa), estratégias comunicativas para se dar bem em várias situações, desenvolvimento das habilidades comunicativas em geral (listening, speaking, reading, writing) e muito mais.

Com isso, a ideia é mostrar às pessoas que levam tanto o ensino quanto o aprendizado à sério que a fluência não é um objeto físico, mas sim algo que desenvolvemos ao longo da vida e do nosso esforço contínuo em aprender mais e mais a cada dia. Se fluente é algo que com vontade e dedicação desenvolvemos conforme vamos nos envolvendo mais e mais com a língua inglesa.

Com o que você deve tomar cuidado?

Eu sei que você não precisa de conselhos em relação a isso. Mas, mesmo assim, decidi escrever algumas coisas só para você ter certeza de que estamos falando a mesmo língua.

Você conhece o ditado “quando a esmola é demais, até o santo desconfia”? Pois é! Quando você estiver ouvindo aquelas doces palavras dizendo que você será fluente em apenas 3 meses por causa da fórmula mágica que alguém descobriu, desconfie!

Farei uma comparação agora só para você entender um pouco mais sobre o mundo dos negócios e as grandes descobertas lucrativas.

A empresa Google quando percebe que algum site (ou empresa) tem um grande potencial lucrativo faz ofertas de compras aos donos do negócio. Foi assim com o Youtube. Eles viram que se tratava de um negócio bom, criativo, interessante e lucrativo. Não deu outra! Compraram o Youtube! O Facebook fez a mesma coisa; comprou o Instagram e o WhatsApp. Essa é a lógica do mercado: se é bom vou comprar e usar para ganhar mais dinheiro. E quem vende sai ganhando muito!

fluência em inglês 2Pois bem! Se alguém descobriu uma fórmula mágica para desenvolver a fluência em 4 meses, por que será que editora de ensino de idiomas nenhuma fez uma oferta de compra para o criador do negócio? As editoras – ou grupos educacionais – ao verem uma ideia valiosa e que tenha credibilidade mostram interesse imediatamente. Eles sabem que o negócio é bom e podem expandir ainda mais. Afinal, por que ficar preso com vendas em apenas um pais, sendo que o negócio pode ser um sucesso no mundo todo?

As editoras voltadas para o ensino de idiomas são empresas sérias. Elas investem em pesquisadores sérios. Colaboram com a seriedade do negócio de ensino e aprendizado. Preocupam-se com os estudantes e os professores. Logo, eles não apostam em fantasias, quimeras! É por isso que eles não entram nessa! Não querem perder a credibilidade!

Outra coisa que você pode parar para analisar é quem é o profissional que vende o curso.

Quais são suas credenciais como profissional de ensino de inglês? Qual seu real compromisso com a profissão? Onde ele ou ela já apresentou suas ideias? Esteve presente em alguma conferência (evento) para profissionais de ensino de inglês e apresentou seu “negócio pedagógico” para conquistar a credibilidade dos parceiros de profissão?

Se a pessoa vende apenas a ideia de que é um falante nativo e por isso está apto a vender fluência para você, desconfie. Se essa pessoa é brasileira (ou estrangeira) e está vendendo a fluência como um produto de prateleira, desconfie. Se ela afirma em seu marketing que você será fluente em poucos meses, semanas ou dias, desconfie! Se ela disse que vai te ensinar os segredos da fluência em apenas 15 minutos e no final ela não disse quais são os segredos e quer que você pague para ter acesso aos segredos, desconfie.

Enfim, quando a esmola for demais, faça como o santo, desconfie!

Conclusão

A fluência está banalizada e vulgarizada. Mas a culpa não é só dos vendedores de milagres. Os desesperados para aprender inglês sem esforço têm muita culpa nisso.

Se ninguém desse crédito a essas conversas mirabolantes, certamente esses cursos não continuariam proliferando e ludibriando tantas pessoas. Infelizmente, muita gente acaba acreditando e quando se dá conta é tarde demais.

A consequência nefasta disso é que os bons profissionais acabam sendo colocados no mesmo balaio e também passam a ser vistos com descrédito e desconfiança.

No final, todos saem perdendo: os estudantes, os bom profissionais, as boas escolas, os bons pesquisadores, os bons livros, os vendedores online com boas intenções. Só quem não perde, meus queridos e minhas queridas, são os aproveitadores que ficam ricos (até mesmo milionários) e seguem vendendo suas fórmulas mágicas para mais e mais pessoas dizendo que se você não aprendeu a culpa é sua e não deles.

E você que chegou até o fim desse texto enorme, o que acha? Você concorda que estamos vivendo uma banalização da fluência no ensino de inglês? Qual sua opinião sobre esse assunto? Vamos continuar essa conversa na área de comentários abaixo! Quero saber o que você tem a dizer. Exponha suas ideias!

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