Os Dilemas da Tradução

Na dica Aprenda Phrasal Verbs em Contexto utilizei uma sentença que chamou a atenção de muitos leitores. A tal sentença foi: “Lady Gaga has been unafraid to show off her body, even after she was criticized by the media for putting on weight”.

Na verdade, o que chamou a atenção foi minha tradução: “Lady Gaga não tem tido medo de exibir o seu corpo, mesmo depois de ter sido criticada pela mídia por estar ganhando peso”.

Recebi e-mails e comentários questionando as razões pelas quais eu usei um “não” depois de Lady Gaga, sendo que em inglês não temos as palavras “no” ou “not” na sentença. Além disso, queriam saber por que eu traduzi “for putting on weight” como “por estar ganhando peso” já que em inglês não aparece o verbo to be. Diante dessas questões resolvi escrever este texto. Não dá para falar tudo! Então, segue um resumo.

Como você bem sabe às vezes é possível traduzirmos algumas sentenças ao pé da letra:

  • She loves you. – Ela te ama.
  • We arrived here yesterday. – Nós chegamos aqui ontem.
  • I don’t speak Russian. – Eu não falo russo.

Nesses casos a relação entre uma língua e outra é quase matemática. É uma espécie de 1 + 1 = 2. Não há segredos! É fácil! É simples! É descomplicado!

No entanto, nem sempre essa relação dá certo. Aliás, na maioria das vezes é bem provável que não dê nada certo. Entra então em cena os dilemas da tradução. Esses dilemas referem-se ao fato do tradutor ter de encontrar a melhor maneira de expressar a mesma ideia de uma língua para outra. Afinal, se a tradução for feita literalmente a sentença (e até mesmo a ideia) pode perder seu brilho, tempero, colorido, personalidade, etc. Dito isso, saiba que a sentença sobre a Lady Gaga poderia ter sido traduzida assim:

  • Lady Gaga tem estado não receosa de exibir seu corpo, mesmo depois que ela foi criticada pela mídia por ganhar peso.

Veja que dá para entender a ideia. Contudo, essa tradução não está de acordo com o modo como falamos em português. Ninguém diz “Eu tenho estado não receoso sobre isso”. Soa estranho! Portanto, quem traduz tem sempre de achar o jeito mais natural de se dizer a mesma coisa na outra língua. Isso deve ser feito sem distorcer a ideia original. Em outras palavras, a ideia original é mantida, mas com uma tradução (versão) composta por ingredientes próprios da outra língua.

Dessa forma, em minha tradução, eu procurei manter a ideia original, usando recursos de nossa própria língua e adaptando-a ao nosso jeitinho de falar: “Lady Gaga não tem tido medo de exibir o seu corpo, mesmo depois de ter sido criticada pela mídia por estar ganhando peso”. Outra pessoa pode traduzir de modo diferente. Mas, a ideia central certamente continuará a mesma.

Moral da história: Na grande maioria das vezes a relação matemática entre uma língua e outra não existe. Assim, cabe ao leitor/ouvinte captar a ideia e compreendê-la/interpretá-la da melhor maneira possível.

Um exemplo bem básico disso está na sentença “How old are you?”. Traduzindo ao pé da letra teremos “Quão velho é você?” ou, mais absurdo ainda, “Como velho está você?”. Em português, ninguém fala isso! Nós sabemos que “how old are you?” é usada para perguntar a idade de alguém. Logo, temos de achar o nosso jeito de fazer a mesma pergunta, que é: “quantos anos você tem?” ou “qual a sua idade?”. Tem também “You’re welcome”, que dependendo do contexto significa “de nada” (resposta a “obrigado!”).

A relação matemática – palavra por palavra – não existe. No entanto, a ideia original é mantida.  Portanto, ao ler um texto esteja atento a isso. Ao ouvir uma música ou bate papo, também. Afinal, a tradução ao pé da letra nem sempre fará muito sentido. Procure sempre captar a ideia central e traduza-a do modo como você diria aquilo o mais naturalmente possível em português. Essa é uma habilidade que você pratica ao longo dos seus estudos e observando a(s) língua(s) no uso cotidiano. Pratique sempre o máximo que puder!

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